Crônicas de alforjarista – Cap. 1.

eu gosto do barulho da máquina. de como a rotação começa devagar e é preciso esperar um tempo pra começar a costurar. gosto de entender o mecanismo da lançadeira, que enlaça o fio pra depois trazê-lo pra cima, já preso em um nó que fica escondido exatamente no meio da trama do tecido. gosto de saber o tempo preciso do retrocesso, um, dois, três – parou – mais um. gosto da dor na mão por causa da força com que a máquina puxa o tecido e eu preciso ficar com a mão firme para a costura sair reta inclusive nas curvas. gosto da dor na lateral da perna direita, de tanto levantar o pé calcador. gosto de um calo que cresceu em um dos meus dedos, bem onde a tesoura pega. calo que não pára de crescer, aliás. gosto dos quatro calos menores na palma da minha mão direita, esses de tanto colocar rebites com a máquina de ilhós. gosto da saber colocar ilhós. gosto dos pequenos cortes de estilete na mão, que bem de vez em quando acontecem. gosto do cheiro de nylon queimado quando eu corto as fitas no aparelhinho que corta e já queima a fita, pra não desfiar. gosto de passar o rodo no chão no fim do dia (vassoura em oficina de costura é bobagem – um rodo tira melhor as linhas do chão). gosto de desligar o rádio, fechar a janela, borrifar inseticida, apagar a luz e fechar a porta. tem muito pernilongo aqui e eles comem minhas pernas enquanto costuro, se eu me esqueço de borrifar o inseticida. gosto de abrir a porta, acender a luz, ligar o rádio, tirar o pó e tirar os pernilongos mortos de cima da mesa da máquina de costura. eles sempre morrem em cima da máquina que fica embaixo da janela. gosto de desenhar moldes novos. de bolsas que eu vi na rua, de bolsas que me pediram pra fazer igual. gosto de desenhar as bolsas com as quais eu sonhei. gosto de ir no brás e ficar namorando os tecidos lindos e caros que um dia eu hei de ter grana pra comprar. gosto de fazer coisas lindas com tecidos muito baratos, que ninguém dá a mínima vendo eles ali na loja. gosto de aprender a fazer coisas que eu ainda não sei. gosto de aprender a fazer coisas que eu olho e julgo difíceis: é mais gostoso quando se aprende algo difícil, eu acho. gosto de pensar que esse quarto onde eu costuro, onde fica a minha empresa, é o quarto onde dormia uma amiga; depois o quarto onde dormia meu irmão; e que eu transformei esse espaço numa oficina incrível. gosto de olhar pra tudo que tem lá dentro. de lembrar que antes não tinha nada. e que ainda vai ter muito mais. gosto de ver meus alforjes prontos na rua. de quem era esse? não me lembro de ter feito esse modelo assim desse jeito. mas a etiqueta está ali: alforjaria. fui eu que fiz. gosto de descobrir novos jeitos de acelerar a produção. gosto de pensar em esquemas de produção. gosto de esticar a fita refletiva na tábua de corte e cortar muitas de uma vez só. gosto de fazer o mesmo com velcro. gosto de colocar tecido sobre tecido, riscar todo o molde e cortar tudo junto. nem sempre dá certo. gosto de ter que fazer as contas, 22 alforjes são 66 forros, 44 bolsos, 22 suportes, 22 alças, 88 tiras de velcro, 88 fechos, 88 refletivos, 44 etiquetas. gosto disso. de fazer as outras contas – de custo de produção, de preço de venda, de blá, blá, blá, não gosto muito, não (e isso explica muita coisa). mas gosto, também. se tem que ser feito, tem que gostar – ou boa coisa não vai sair. gosto da reação das pessoas quando elas tomam chuva e me escrevem logo depois, impressionadas por que não entrou nada de água dentro do alforje. gosto quando me enviam mensagens com coraçõezinhos: meu alforje chegou! é lindo! ❤ ❤ ❤
gosto quando me dizem: ei! tá pensando que tá na dinamarca pra andar de bicicleta no meio da rua? porque aí eu posso responder: não! não estou pensando que estou na dinamarca. estou trabalhando para fazer do meu país um lugar tão bom pra se viver quanto qualquer país que vc queira citar. e vai ser. não por causa do meu trabalho. mas pelo meu, pelo seu, pelo dele, o dela ali, e daqueles outros também.
não é presunção. é que eu trabalho com ciclistas. e ciclistas tem o poder de mudar o mundo. gosto quando me encontro com outros empreendedores e escuto suas histórias: – eu trabalhei durante dez anos ganhando vinte paus por mês, juntei dinheiro e abri meu negócio. – eu herdei um milhão de reais e abri meu negócio. e eu… bom, eu estava recém-separada, sub-empregada, sem nenhum dinheiro no bolso, comecei a andar de bicicleta pra economizar dinheiro – não é mentira, às vezes eu não tinha dinheiro pra andar de ônibus. e também não suportava essa vida de andar de ônibus. gosto de vento no rosto. emprestei a bicicleta de uma amiga, que me mostrou seu alforje holandês incrível, que podia ser usado como bolsa, e tinha um compartimento com ganchos, fechado com zíper, e na etiqueta vinha escrito que era impermeável. juro que não foi desdém de amiga pobre que jamais poderia comprar um alforje de 180,00 euros, mas eu olhei… olhei…
– mas essa alça é muito dura, vc consegue andar com ela no ombro quando não estiver com a bicicleta?
– não, é super desconfortável.
– e essa abertura bem na boca da bolsa? o tecido pode ser impermeável, mas o modelo é aberto, vai entrar água por aqui.
– nossa, é mesmo…
– vou fazer um pra mim (eu faço melhor, foi o que eu pensei vendo o alforje holandês maravilhoso e carérrimo).
talvez eu seja muito maluca, por achar que um quarto desocupado na minha casa poderia ser uma oficina de costura, pra achar que eu faria um alforje melhor do que uma empresa holandesa a anos-luz de experiência na minha frente, pra achar que dava pra montar um negócio sem um tostão no bolso. ou na bolsa, pra fazer graça.
mas dava. e o investimento inicial da alforjaria foi uns trinta reais – o suficiente pra comprar dois metros de nylon, um metro de fita refletiva, zíper, uns mosquetões de metal, que juntos formaram uma bolsa verde muito simples, com forro cor-de-rosa com coraçõezinhos multicoloridos (era a primeira bolsa, eu não queria gastar meus tecidos bonitos com ela. vai que dá errado), pela qual a irmã de uma amiga se apaixonou e comprou pra levar suas coisas de academia. pois é. o primeiro alforje da alforjaria não foi pra nenhum ciclista. quer dizer, o segundo alforje. o primeiro mesmo foi o meu, de lona de algodão azul, com forro vinho e pesponto amarelo. com dois bolsos externos, com aba. ligeiramente tortos, os bolsos. um mais pra cima que o outro. tomei tanta chuva com ele, mas tanta chuva, que eu só podia mesmo me preocupar em fazer alforjes impermeáveis. é muito ruim ter sua muda de roupa limpa encharcada dentro do alforje. mas eu estava falando da minha rotina de trabalho e de tudo o que eu gosto nela. gosto do meu trabalho. gosto muito do meu trabalho. eu faço alforjes. não é incrível isso?

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