Nova linha – Alforjaria para pesca. Ou: outra crônica de alforjarista

O título é uma brincadeira, claro, mas é quase verdade: cheguei na casa dos meus avós e vi meu avô chegando pouco depois, com uma sacola dessas de lona de algodão bem antigas, super resistente, e bem gasta pelo uso também. Meu avô havia colado em volta da bolsa um saco de ração, então a figura de um saudável e vigoroso golden retriever feliz e ofegante num fundo amarelo estampava a sacola. Também mandou um sapateiro costurar tiras de cinto de segurança, e sabe-se lá como, usava a sacola como mochila. Meu avô foi dos mais bravos a vida toda. Para ler um gibi na casa dele, precisávamos antes pegar uma bíblia bem grande, ou um livro de plantas medicinais, ou qualquer outra coisa que uma criança de sete anos jamais pegaria para ler de livre e espontânea vontade. Líamos empoleirados um no outro, os três irmãos e mais algum primo, até por que não tínhamos muitos livros grandes disponíveis. Colocávamos o gibi no meio e fingíamos grande interesse nas parábolas de Cristo, caso ele entrasse no quarto. Quando isso acontecia, o sangue parecia congelar, a gente se arrependia até o último fio de cabelo por ter tido a ideia brilhantemente estúpida de tentar enganar o avô, onde a gente tava com a cabeça, era claro que não ia dar certo, ele saiu do quarto, ufa, todo mundo voltava a respirar. Foi também um pai dos mais bravos, ouvimos dizer. Mas agora, vendo esse homem ligeiramente curvado pelo tempo, já não vejo mais braveza nenhuma. Vejo um homem doce, cujas histórias começam a ficar cada vez mais ricas em detalhes quase improváveis, e isso nos preocupa (a idade avança, e se ele já contava histórias de pescador quando jovem, agora a situação se complicou). Queria ser ator. Até fez um teste para algum filme na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Os homens da minha família são mesmo particularmente muito bonitos. Vendo meu avô com a sacola de pesca com um saco de ração colado e tiras de nylon muito mal costuradas, eu disse:

– Vô, deixa eu arrumar sua sacola?

– Minha sacola de pesca?

– Sim, deixa eu arrumar pro senhor.

– Mas não tem nada pra arrumar.

– Tem sim. Eu faço bolsa, vô. Deixa eu arrumar essa pro senhor.

E apesar da resistência inicial, logo vieram orientações variadas sobre o que poderia ser melhorado, onde eu não deveria mexer, e isso, e aquilo, e aquilo outro. Trouxe a sacola para casa. A primeira coisa que eu fiz foi tirar o plástico de ração e jogar a bolsa na máquina. Depois vi como poderia aproveitar a tira de nylon que já estava costurada, para não precisar desmanchar nada à toa. Fiz uma outra bolsa, de lona polivinílica, para servir como base impermeável – para cumprir a função do saco de ração, na verdade. Fiz dois bolsos pequenos, com divisão interna, coloquei velcro na abertura da bolsa para que ela ficasse fechada quando usada como mochila. Também costurei  quatro argolas e duas alças removíveis com mosquetões para prender nessas argolas. Ficou uma sacola muito bonita.

Claro que meu avô não precisava de nenhuma sacola nova. Ele tem várias, sacola é uma coisa que não falta na casa dele. Tem até uma mochila linda, própria pra pesca, que meu irmão deu a ele em algum aniversário. Quem precisava disso era eu. Por que aqui de onde estou, há tanto tempo já nessa cidade grande e longe de lá, eu precisava dizer de algum modo que eu queria estar mais perto. Acho que assim ele vai saber.

Em tempo: o que vai entrar em linha mesmo é o alforje Angelin.

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