Dia de mudança

Que a gente precisava crescer, bom, a gente precisava mesmo. Duas máquinas industriais enormes e pesadíssimas, muita matéria-prima, a gente foi crescendo nesses dois anos quase sem se dar conta, já não cabíamos mais no quarto de empregada/ quintal/ lavanderia. Comecei a procurar um salão comercial. Mas nessa São Paulo especulada, cinco mil reais é o que custa qualquer lugar sujo, feio e pequeno numa rua suja, feia e pequena (tô brava). E cinco mil reais de despesa fixa pra uma empresa que acabou de nascer, não precisa ser nenhum gênio do empreendedorismo pra saber que é o maior tiro no pé. Então engoli meu orgulho, pedi licença ao filho e fiz da sala de casa, oficina de costura. E depois, convenhamos – quem precisa de sofá com o tanto de trabalho que se tem a fazer?

Primeira tentativa de introdução explicativa, ou: ok, é melhor deixar pra amanhã.

A Alforjaria existe desde 2010. É uma empresa pequena de processos artesanais, fazemos acessórios para bicicletas. Tudo aqui é feito um a um. Tá, mentira. Em geral fazemos de cinco em cinco, de dez em dez, por que fazer tudo um a um é só pra gente muito rica que não tem mais nada pra fazer da vida, sem falar que os alforjes custariam uma pequena fortuna e o nosso objetivo primeiro é mudar o mundo, não fazer meia dúzia de coisas muito caras e enriquecer rapidamente aproveitando o boom da bicicleta e partir pra outro negócio depois que a gente cansar dessa história de fazer alforjes.

Alforje, que raio é isso?

Um alforje é um tipo de bolsa para cavalos. Comumente encontrado em selarias nos rincões do Brasil, é uma bolsa dupla, fica apoiada no lombo do animal, uma bolsa pra cada lado. Lampião usava alforjes. Avohai usava alforjes. Talvez Clint Eastwood tenha usado também em algum espaguete faroeste ao som de Ennio Morricone. Na falta de cavalos, éguas, jumentos e afins, e graças também ao advento do asfalto, nós, que vamos de bicicleta mas que não somos procurados pela polícia, caçadores ou personagens de filme de velho oeste, usamos alforjes também. Ok, ok, tudo bem um foragido da polícia usar bicicleta. Afinal, bicicleta não define caráter. Pensando bem, com essa polícia que se vê por aí, fugir da polícia é quase necessário. Ah, não, que futuro tenho eu como comerciante, levantando questões assim? Voltemos aos alforjes.

Mais amor, por favor?

Eu não entendo bem essa campanha. Eu não peço mais amor, por favor. Eu espalho amor logo de vez. Até por que amor não é uma coisa que a gente pode supor que todo mundo tem na mesma medida que a gente, pra gente sair pedindo por aí. Uns tem mais, outros menos… A gente tem muita sorte. A gente trabalha recortando amor. E costurando depois.

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